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David Byrne falando no celular

janeiro 5, 2010

Leitura de férias: “Ao longe, ouço uma cacofonia abafada de vários toques de celular pelo vagão do trem – trechos de Mozart e hip hop, toques antigos e refrões de músicas pop, tudo emanando dos minúsculos autofalantes dos celulares. Todos tilintando aqui e ali. Todos com versões incrivelmente toscas de outras músicas. Esses toques são ‘representações’ de músicas ‘verdadeiras’. Não se trata de música feita para ser ouvida como música em si, mas sim apenas para lembrar e servir de referência a uma outra música de verdade. Eles são como placas de estrada que dizem ‘sou uma pessoa que escuta Mozart’ ou, como é mais comum, ‘nem me dou ao trabalho de escolher um toque de celular direito’. Uma sinfonia moderna de música que não é música, mas que leva você a pensar em música.” (Diários de Bicicleta – David Byrne, ed. Amarilys 2009, pg. 35)

“Representações de músicas verdadeiras”, “não é música mas leva a pensar em música”… Simulacros são uma obsessão de David Byrne desde pelo menos True Stories, filme que dirigiu em 1986 e para o qual os Talking Heads lançaram o album homônimo, um dos mais pop de sua carreira (em comparação com as experimentações do inicio dos anos 80, True Stories soa um disco totalmente comercial). Aliás, o conceito de simulacros culturais é bem anos 80… Alguém se lembra de Jean Baudrillard, adorado no altar da Folha Ilustrada? Eu me lembro. Até me interessava, mas é tão anos 80…

À primeira leitura, este trecho me trouxe imagens de ironia. Pensei em copiá-lo para o primeiro post do ano. Durante algum tempo briguei com o que iria escrever: inspirado por ele rascunhei rabujas sobre o mau gosto alheio e os excessos da fetichização dos celulares (aqui e aqui, videos do iPhone sendo usado como “instrumento musical”). Mas meu lado conciliador e bifocal sabia que estaria sendo ridiculo se caisse no tema eles versus nós – esse é um pouco do estado de espirito impresso pelo Luaka Bopper. Seria irônico, sendo ele o globtrotter cultural que é. Por outro lado, quem disse que observar é um ato imparcial? Nein nein. Sua visão dos Estados Unidos (excluindo NY e New Orleans) é um misto de pena e compaixão, mas passa longe da identificação absoluta. E como não acredito em relativismo cultural nem em correção politica, assino embaixo.

No final das contas, aquele parágrafo sobre os celulares poderia ser sobre qualquer outro fenômeno, já que fala de simulacros e projeções, não apenas em música. Mas me leva a pensar em outras coisas, como por exemplo a necessidade que temos de dar nome às coisas. No caso, nomes às nossas coisas. Marcar o território. Tem gente que ‘tuna’ o carro. Outros escolhem toques de celular “personalizados”. Alguns estudam vinhos. Tem gente que faz listas do melhor do ano que se encerra (leia-se: “o melhor para mim”, o que também significa “quem sou eu”). Outros bordam o próprio nome no bolso da camisa, e não precisa ser médico para fazer isso. Alguns decoram a casa sem parar. Outros “decoram” o computador (e sua identidade digital), trocando as fotos do desktop, facebook, twitter e atualizando os softwares da vez. Tudo isso é dar nomes, é cuidar da própria identidade, é polir o espelho. Eu faço, todos fazemos.

Ninguém aguenta olhar para o horizonte liso do mar durante muito tempo, isso angustia: cadê aquele barquinho? Ninguém aguenta o absoluto dos desertos, e mesmo os beduinos precisam de oásis para marcar a passagem do tempo e da própria existência. Sem marcos, vivemos à deriva. É por isso que ouvimos tanta música. A matéria da música é a memória. A de nossa identidade também. Música serve para unir e definir as pessoas, e de certa forma tanto faz qual será o tipo de música que fará isso – o que importa é se sentir vivo. Pense nisso: uma canção é das poucas coisas que podemos levar conosco à intimidade do banho.

E os toques de celular? Continuam tocando.

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