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Por que escrever sobre música é uma piada?

novembro 17, 2009

(Isso vale para a critica de arte, em geral. Para a Critica, vai.)

Matéria do Caderno2 de ontem: “O desafio de criar com novas mídias – Museu da Imagem e do Som apresenta obras realizadas por artistas selecionados (…)” Lá no fim do texto: “Guilherme Lunhani, músico em formação na Unicamp, também criou obra interativa, Objeto – Partículas Sonoras. Seu conceito básico, segundo ele, é o de que o público ‘controle o som no espaço’, numa ação de fonte virtual.” Deixovê se entendi: ação de fonte virtual… será que a repórter deu copy/paste no press release? Ou ela realmente parou pra entender o que isso quer dizer? É que o burrão aqui teve que virtualizar a imaginação pra receber a musa inspiradora e captar a alma do texto. E o que é controlar o som no espaço? Será isto aqui? Afinal, foi preguiça da moça ou falta de espaço no jornal?

Pra começo de conversa, este blog simiesco talvez pudesse se incluir nessa piada toda – talvez. Como é um blog e não um texto mudo impresso em jornais ou revistas, escapo com o álibi de incluir exemplos sonoros junto com o que escrevo. O que faz toda a diferença, claro. Adolescente, cansei de comprar discos a partir de criticas maravilhosas, só para me frustar ao perceber a distância entre o que havia lido e o que ouvia no vinil. Aos poucos foi caindo a ficha: a critica inventa, colore, doura a pilula e delira por cima da carne seca, pois está lá para traduzir uma experiência. Tradutore, traditore. Em alguns casos, tratore.

O problema é a descrição. Como é que se vai descrever a música de um CD (ou playlist, ou pendrive, ou seja lá que suporte se quiser inventar) sem cair em uma adjetivação excessiva? Ou contar como foi um show pra quem não esteve lá? Com a internet e o acesso fácil a conteúdos audiovisuais isso mudou – um pouco, vá, pois já cansei de ler em blogs muitas criticas alucinógenas para sons minguados. “Saiu o melhor album do ano”, e é uma porcaria, tá ligado? Aí entra o problema da sardinha, que tem que ser puxada na brasa, bem assada e temperada, pra ver se o freguês não percebe aquele gosto mareado de escama lááááá no fundo da garganta. Quer dizer: tem muita gente que adora soltar rojão só pra chamar a atenção, não para a música em si (ou qualquer outra forma estética – esqueça a palavra “arte”), mas chamar atenção para sua própria escrita, que é sua própria obra. Tradutore, traditore, sequestradori. Isso quando quem escreve simplesmente não entende chongas mongas do que viu/ouviu e copia o press release na esperança de que o leitor tenha uma epifania.

Ou talvez eu é que seja um idiota, mesmo. Pedir aos criticos e jornalistas que me cantem a música tão maravilhosa que me empolgará pelas próximas duas semanas? Devo estar batendo na porta errada.

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