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Inovação X miopia na indústria musical

junho 5, 2009

Tá aqui um video jogado no YT, uma edição livre feita por um internauta, com artistas e jornalistas maldizendo as grandes gravadoras. Lugar comum hoje em dia, né? Not my fault. Além do mais, é sempre bom ouvir Zappa, Chuck D (Public Enemy), Radiohead ou Dick Dale mandando bala.

Dave Marsh, jornalista musical: A natureza do monopólio (cultural das gravadoras) é se perpetuar a si mesma, em sua própria imagem, sem inovação. (…) Essas companhias cresceram tanto que não podiam mais se dar ao luxo de perdas financeiras, por isso precisavam de grandes resultados de midia, e isso não se traduzia na criação de TALENTO – pois talento não pode ser desenvolvido da noite para o dia – mas sim na criação de uma SENSAÇÃO musical.

Frank Zappa, em algum lugar dos anos 80: Os jovens executivos das gravadoras são hoje mais conservadores e perigosos à arte do que os velhinhos que tocavam aquelas empresas nos anos 60. (…) E como estes jovens chegaram lá? Os velhinhos contrataram uns hippies para servir café, aos poucos foram dando confiança a eles, que foram galgando postos dentro da empresa até chegarem a um cargo onde poderiam botar os pés sobre a mesa. E sua atitude era ‘não vamos lançar esse disco, não é o que os jovens querem, EU SEI o que eles querem, pois sou (fui) um deles’. (…) Mas quando essa pessoa atrás da mesa na gravadora deixar de lado essa atitude e se permitir ter o ESPIRITO EMPREENDEDOR que o ajudou a subir na empresa, aí ele não será mais o árbitro final do gosto de toda a população.

Ken Lopez, professor de Indústria da Música na Universidade Southern California: Se as rádios não envolverem os jovens como seus ouvintes agora, não terão ouvintes adultos no futuro. Elas estão procurando distribuir o conteúdo de formas diversas, como streaming e podcasting. E para sobreviver precisarão entender as novas tecnologias que estão à disposição e criar novas avenidas de distribuição.

E tomando carona no video, me lembrei da ótima entrevista que o jornalista Pedro Alexandre Sanches fez com o André Midani, homem forte da gravadora Philips nos anos 70. Logo no inicio ele explica seu ponto de vista sobre os executivos que gerenciam as grandes gravadoras hoje em dia. Amplie o post:

Pedro A Sanches – Você diz no seu livro (“Música, Ídolos e Poder”, ed. Nova Fronteira) que sua profissão era “o mundo das maravilhas”. Deixou de ser?

André Midani – Com certeza.

PAS – Por quê?

AM – No livro explico uma das versões do porquê, que é a entrada dos tecnocratas. Acho que isso é um dos aspectos mais interessantes do livro, porque não toca propriamente à música e pode acontecer em qualquer indústria criativa. Para condensar isso numa frase, o drama é que os homens criativos acabaram trabalhando para os tecnocratas, em vez de os tecnocratas trabalharem para os criativos. A culpa é de quem ou de quê? Evidentemente os fenômenos são vários, mas um que me chamou sempre muito a atenção, e menciono no livro, é que os homens criativos sempre tiveram uma tendência a olhar para o lucro com um certo desprezo. E os homens criativos falavam com certo rancor do board lá em cima – em português, no Brasil, tínhamos uma palavra para isso, “os homens”. E foi uma profunda besteira deles, porque, se tivessem entrado num curso, ou numa série de cursos de administração para não-administradores, de financista para não-financistas, aquelas histórias, teriam descoberto que aprender esse mundo, pelo menos o teórico, preto no branco, em números, não é tão complicado assim. Então abdicaram do comando dessas coisas, por preguiça, por omissão, por, sei lá, aristocracia. Mal sabiam eles que iriam se foder muito mais abdicando do que aprendendo e comandando.

PAS – Então você credita o fim das maravilhas principalmente aos tecnocratas?

AM – Não, credito como um aspecto. Um outro é o fato de as companhias de discos terem sido compradas pelos conglomerados de comunicação. (…)

PAS – Você já mencionou vários fatores (que levaram à crise das gravadoras), mas não citou ainda internet, computador, MP3, download, pirataria. O que você acha desses?

AM – Vamos falar do virtual. Se isso aconteceu do jeito como aconteceu é justamente pelo desconhecimento que os tecnocratas tinham da evolução tecnológica, das oportunidades que se apresentavam, ao mesmo tempo que apresentavam ameaças. Eles escolheram lutar contra as ameaças e não criar as oportunidades. (…) Em vez de processar o Kaazaa, por exemplo, comprava o Kaazaa. Quando digo comprava é no sentido… ou se alia, ou se associa. Kaazaa estava aberto para isso. Ninguém gosta de ser pirata, como ninguém gosta de fazer tráfico de droga. (…) Evidentemente que no caso de Kaazaa é um pouco mais sofisticado que o cara na favela. Mas, de qualquer maneira, por que esses meninos da tecnologia não entraram dentro das companhias de disco? Porque elas fecharam as portas. Se não, pô, obviamente! Você não convida um artista novo que te apresenta uma música completamente nova, no lado criativo? Por que não vai fazer a mesma coisa no lado da distribuição?

One Comment leave one →
  1. junho 6, 2009 1:41 am

    Adorei o post e a entrevista transcrita.

    Nunca tinha pensado desta forma, realmente as coisas poderiam ter sido mais faceis se desde o Napster houvesse um interesse de mudança por parte das gravadoras.

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